Mês Vocacional e a história por trás de uma tradição da Igreja

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Todos os anos, quando chega agosto, as comunidades católicas do Brasil voltam a atenção para um tema conhecido: a vocação. Missas, orações, encontros e iniciativas pastorais recordam o chamado de Deus e rezam por padres, religiosos, famílias, leigos e por todos aqueles que procuram discernir o caminho que o Senhor lhes apresenta.

Mas existe uma pergunta que nem sempre aparece: por que justamente agosto?

A resposta está em uma história que começou antes de o mês vocacional ser assumido em todo o país.

A escolha de agosto tem raízes em experiências realizadas por dioceses brasileiras antes da decisão nacional. Um dos casos que se tornou referência aconteceu na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul.

Segundo um histórico publicado pela própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a escolha de agosto naquela experiência levou em conta o calendário litúrgico e a memória de São João Maria Vianney, padroeiro dos párocos, celebrada em 4 de agosto. A intenção era também evitar períodos importantes do calendário da Igreja, como o Advento, a Quaresma e o Tempo Pascal.

A experiência foi ganhando espaço em outras Igrejas locais. Em 1980, um Encontro Nacional de Pastoral Vocacional apresentou a proposta de instituir agosto como mês vocacional em todo o país. No ano seguinte, a ideia chegou à 19ª Assembleia Geral da CNBB e foi aprovada.

Em 1981, portanto, agosto passou a ser assumido em todo o território nacional como o Mês Vocacional. A mesma assembleia também aprovou a realização de um Ano Vocacional no Brasil, que aconteceu em 1983.

A decisão tinha um objetivo mais amplo do que simplesmente reservar algumas semanas para falar sobre padres e religiosos. A proposta era despertar nas comunidades a consciência de que a vocação faz parte da vida de todo cristão e de que toda a Igreja participa do processo de animação vocacional.

Por isso, agosto ganhou uma dinâmica própria. Ao longo do mês, a Igreja no Brasil passou a dedicar os domingos à reflexão sobre diferentes formas de viver o chamado de Deus. A organização tradicional contempla o ministério ordenado, a família e o matrimônio, a vida consagrada e a missão dos cristãos leigos e leigas.

 

Mas essa história começa muito antes de 1981

A escolha de agosto é relativamente recente. A própria compreensão de vocação, porém, acompanha a Igreja desde suas origens.

A palavra “vocação” vem do latim vocare, que significa “chamar”. Na Bíblia, Deus chama pessoas concretas para determinadas missões: Abraão, Moisés, Samuel, Isaías, Jeremias, Maria e os Apóstolos. Mas a Escritura apresenta algo ainda mais amplo: o chamado não é reservado a um grupo específico.

São Paulo escreve aos cristãos de Éfeso: “Vivei de maneira digna da vocação que recebestes” (Ef 4,1). A mensagem é dirigida à comunidade cristã, não apenas aos ministros.

É aí que começa uma história que atravessa os séculos e ajuda a entender por que o Mês Vocacional não pode ser reduzido à busca por novos padres ou religiosos. Na verdade, a história da vocação na Igreja é também a história de como os cristãos foram compreendendo, ao longo do tempo, o que significa ser chamado por Deus.

E essa compreensão nem sempre foi apresentada da mesma maneira.

No próximo texto desta série, vamos voltar aos primeiros séculos do cristianismo e descobrir uma coisa que pode surpreender muita gente: na Igreja antiga, quando se falava em vocação, o pensamento não estava concentrado primeiro no sacerdócio ou na vida religiosa.

A história começa no Batismo.