Em um tempo marcado por doenças, perdas, solidão e novas formas de isolamento, reflexões dos papas apontam para uma mesma atitude cristã: aproximar-se de quem sofre, escutar e cuidar.
O sofrimento faz parte da experiência humana, mas a maneira de lidar com ele continua sendo uma das grandes questões de cada época. Diante da doença, do luto, da solidão, da violência ou de uma crise pessoal, uma pergunta costuma aparecer: por que isso está acontecendo?
Para a tradição cristã, nem sempre existe uma resposta capaz de explicar completamente a dor. E, diante de quem sofre, talvez a primeira atitude não seja explicar, mas estar presente.
Essa perspectiva aparece de forma particularmente clara no magistério dos últimos papas. Em 1984, São João Paulo II publicou a Carta Apostólica Salvifici Doloris, dedicada ao sentido cristão do sofrimento humano. No documento, ele afirma que “o sofrimento parece pertencer à transcendência do homem” e observa que, diante da dor, surge inevitavelmente a pergunta sobre o seu sentido.
Mas João Paulo II vai além. Para ele, quando o sofrimento entra na vida de uma pessoa, ela se torna, de modo particular, “o caminho da Igreja”. Por isso, afirma que a Igreja deve encontrar-se com o ser humano precisamente nesse caminho de sofrimento.
Mais do que explicar, aproximar-se
Quarenta anos depois da publicação de Salvifici Doloris, o Papa Francisco retomou essa questão de maneira muito concreta. Em 11 de abril de 2024, durante um encontro com os participantes da Assembleia Plenária da Pontifícia Comissão Bíblica, que estudava o tema “A doença e o sofrimento na Bíblia”, Francisco afirmou que o sofrimento e a doença são realidades que precisam ser enfrentadas de maneira humana e digna.
Ao refletir sobre a atitude de Jesus diante das pessoas fragilizadas, o Papa resumiu sua perspectiva em uma frase: “Jesus não explica o sofrimento, mas debruça-se sobre quantos sofrem.” Segundo Francisco, Cristo não oferece respostas fáceis aos “porquês” humanos, mas acolhe o drama de quem sofre e se deixa tocar por ele.
Na mesma ocasião, Francisco apresentou duas palavras como fundamentais para compreender a atitude cristã diante da dor: compaixão e inclusão. A compaixão, explicou, leva à proximidade. Nos Evangelhos, Jesus se aproxima dos doentes, dos pobres, dos marginalizados e daqueles que carregam algum tipo de sofrimento. A inclusão, por sua vez, recorda que ninguém deve ser colocado fora da possibilidade de cuidado e salvação.
Ao falar sobre a missão da Igreja, Francisco afirmou que, diante da experiência do sofrimento e da doença, os cristãos são chamados a “caminhar com todos”, na solidariedade cristã e humana, abrindo oportunidades de diálogo e esperança.
A afirmação também ajuda a compreender por que a Igreja mantém, ao longo de sua história, hospitais, casas de acolhida, pastorais, obras sociais, iniciativas de cuidado aos idosos, pessoas em situação de rua, dependentes químicos, migrantes e tantos outros grupos vulneráveis. Essas ações não substituem o anúncio do Evangelho, mas expressam uma dimensão concreta da própria missão cristã: aproximar-se de quem sofre.
O sofrimento em uma sociedade cada vez mais conectada
A questão ganha novos contornos no século XXI. As tecnologias digitais ampliaram as possibilidades de comunicação e aproximaram pessoas que vivem em lugares diferentes. Ao mesmo tempo, questões relacionadas à solidão, ao isolamento social e à dificuldade de estabelecer vínculos continuam presentes na sociedade contemporânea.
Os dados demográficos mostram também uma realidade religiosa complexa. Segundo levantamento do Pew Research Center, o número de cristãos no mundo passou de aproximadamente 2,1 bilhões em 2010 para 2,3 bilhões em 2020. Apesar do crescimento absoluto, a participação dos cristãos na população mundial caiu de 31% para 29% no mesmo período.
Os números, por si só, não explicam a experiência individual de quem sofre. Mas ajudam a situar uma questão que permanece atual: em uma sociedade com novas formas de comunicação e novas possibilidades de interação, como construir relações capazes de oferecer presença, cuidado e pertencimento?
Para a Igreja, essa pergunta não se responde apenas com conceitos.
Em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, publicada em 25 de maio de 2026, Leão XIV afirma que a Igreja reconhece nos desafios do tempo presente um lugar para exercer sua vocação à “escuta, ao diálogo e ao serviço”. O Papa também escreve que a Igreja não pode permanecer distante dos sofrimentos concretos das pessoas, aproximando-se das “feridas da humanidade” por meio da caridade evangélica.
Na apresentação da encíclica, o pontífice reforçou essa perspectiva ao convidar a sociedade a aprender a ouvir, enfrentar os desafios atuais e cooperar para a construção de uma sociedade mais humana e fraterna. O contexto daquele discurso era a inteligência artificial, mas a preocupação apresentada por Leão XIV é mais ampla: preservar a pessoa humana em meio às profundas transformações do nosso tempo.
Uma Igreja que encontra pessoas, não apenas problemas
Essa compreensão também aparece na tradição cristã por meio da figura do Bom Samaritano. Na Fratelli tutti, Francisco apresenta a parábola como uma referência para pensar a construção de comunidades capazes de assumir as fragilidades dos outros, aproximar-se de quem caiu e trabalhar pela recuperação de sua dignidade.
A lógica é diferente daquela de simplesmente identificar o problema e oferecer uma explicação.
Quem está doente precisa de cuidado. Quem perdeu alguém precisa de companhia. Quem vive uma situação de abandono precisa ser procurado. Quem enfrenta uma crise pode precisar, antes de qualquer conselho, de alguém disposto a permanecer ao seu lado.
É nesse sentido que a pergunta sobre o papel da Igreja diante do sofrimento ganha uma resposta concreta. Não se trata de abandonar a reflexão sobre o sentido da dor. A própria Salvifici Doloris dedica-se profundamente a essa questão. Para João Paulo II, o sofrimento humano provoca a pergunta “por quê?” e pode abrir uma busca por significado. Mas o cristianismo não reduz a resposta ao sofrimento a uma teoria.
Na visão apresentada pelos papas, a resposta passa por uma pessoa: Jesus Cristo. E passa também por uma comunidade capaz de reproduzir, na vida concreta, a proximidade que Ele demonstrou diante dos que sofriam.
Talvez por isso uma das imagens mais fortes da fé cristã continue sendo a de alguém que se aproxima de uma pessoa ferida enquanto todos os outros passam adiante.
A Igreja é chamada a fazer o mesmo.
Em um mundo que produz novas formas de conexão, mas continua convivendo com antigas e novas formas de sofrimento, a pergunta permanece atual: quando alguém sofre ao nosso lado, nós sabemos apenas explicar a dor ou também sabemos permanecer junto de quem sofre?



