Santa Faustina e a força da misericórdia no mundo de hoje

Maria_Faustyna_Kowalska

No dia 5 de outubro a Igreja celebra Santa Faustina, apóstola da Divina Misericórdia. Mas talvez a pergunta mais interessante para esta data não seja apenas quem foi essa santa e sim “Por que a misericórdia se tornou uma das palavras mais fortes do catolicismo contemporâneo”?

Para o cristão, misericórdia não é simplesmente ter pena de alguém, misericórdia é o amor que se aproxima da miséria do outro para levantá-lo. É um amor que não ignora a fragilidade, mas entra justamente nesse lugar.

O papa João Paulo II escreveu, em sua encíclica Dives in Misericordia, publicada em 1980, que Cristo revela Deus como o Pai “rico em misericórdia”. A misericórdia não é um aspecto secundário da identidade de Deus, é o centro de tudo!

Algum tempo depois, o Papa Francisco começaria sua bula Misericordiae Vultus com uma afirmação ainda mais direta: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai.” Talvez esteja aí uma das razões pelas quais essa palavra tenha adquirido tanta força no catolicismo contemporâneo: Em um mundo que frequentemente questiona “O que você fez para merecer?”, o Evangelho insiste em perguntar “Como posso me aproximar da sua ferida?”

Uma mulher quase desconhecida durante a própria vida acabaria se tornando uma das figuras católicas mais associadas à misericórdia no mundo inteiro. E isso aconteceu porque sua mensagem encontrou algo que atravessa todas as épocas: a necessidade humana de acreditar que a própria história não termina naquilo que deu errado.

 

Por que Faustina fala tanto ao século XXI?

Faustina viveu entre duas guerras mundiais. Sua experiência espiritual aconteceu em uma Europa que experimentava pobreza, violência e dor.

Hoje, além de guerras, convivemos com outros tipos de sofrimentos: a ansiedade diante do futuro, o medo de fracassar, a solidão mesmo estando conectados a comparação constante e o medo de não ser suficiente. Mudaram as circunstâncias, mas não mudaram as feridas humanas.

Existe ainda uma espécie de cansaço contemporâneo que não aparece necessariamente no corpo. Nas redes sociais, vemos vidas editadas. No trabalho, precisamos demonstrar competência. Para nós mesmos, criamos padrões cada vez mais altos. E, no meio disso tudo, a misericórdia apresenta uma ideia radical: você não precisa esconder sua miséria para ser amado por Deus.

 

A miséria e a misericórdia

Existe uma referência belíssima de Santo Agostinho utilizada pelo próprio Papa Francisco na Carta Apostólica Misericordia et Misera. Ao comentar o encontro entre Jesus e a mulher adúltera (João 8, 1-11), Santo Agostinho diz: “Ficaram a sós, a miserável e a Misericórdia”. Nós somos miseráveis, Deus é plena misericórdia!

Em 2026, o papa Leão XIV falou sobre a Divina Misericórdia no Regina Caeli publicado este ano. Ele refletiu sobre o encontro de Tomé com Cristo após deixar o túmulo vazio e destacou justamente as feridas de Jesus como lugar de reconhecimento do ressuscitado.

A mensagem de Santa Faustina não ficou restrita ao século XX, ela ainda é grandiosa: a misericórdia não apaga as feridas; ela transforma o significado delas!

Em uma sociedade que oferece inúmeras formas de conexão, mas nem sempre consegue produzir encontro; que permite falar com milhares de pessoas, mas nem sempre nos ensina a escutar uma; que multiplicou as possibilidades de escolha, mas também multiplicou a sensação de inadequação, a mensagem da misericórdia toca uma necessidade profundamente humana: a de saber que somos amados antes de sermos perfeitos. E quem experimenta esse amor é chamado a fazer o mesmo pelo irmão.